Desejo não é pecado

“Amor é o desejo irresistível de ser irresistivelmente desejado.” (*Robert Frost)
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Tire meu fôlego

Jonas tem esse dom, o de transformar qualquer moça em musa, o de “monalisar”  a mulher objeto de sua paixão,como se amar fosse um ato de pintura, e sentir fosse um fato de escultura, porque afinal para ele em qualquer parte, todo amor é uma obra de arte. Porque para os românticos tudo aquilo que não existe para permitir que se ame, deve ser inventado.
E não poderia ter sido diferente a relação dele com Alice, porque começou parecida a uma amizade, embora sempre tivessem deixado muito claro que havia um desejo bem entranhado em suas gentilezas. A ele nunca importou receber a alcunha de “garanhão” perante os outros homens. Muito pelo contrário, a sua discrição sempre o fez um Don Juan silencioso, de segredos apenas conhecidos pelas mulheres que com ele partilharam o prazer.
A vontade de Jonas era mesmo que Alice nunca encontrasse noutro homem a capacidade que ele tinha de fazê-la feliz em qualquer posição e em poucos minutos. Sempre se importou muito mais com o prazer delas que com o dele próprio. A sua satisfação sempre foi atendida dessa maneira. O gozo dela era o gozo dele também. Por isso memorizou o mapa de seu corpo e a languidez de seus recantos. Alice era branca como a luz do luar em noite quente.
Conheceu-a ali, enquanto caminhava pela orla vislumbrando as águas cálidas e esverdeadas da baia, ela caminhava num daqueles vestidos de verão coloridos e longos, sandálias rasteiras nos pés e olhar distante. Ele de bermudas, descalço pisando na areia e sem camisa. O primeiro olhar já disse tudo pra ele. Ficou interessado na moça pela forma como seus cabelos balançavam. O perfume do banho que ela tinha tomado chegou a seu nariz, invadiu seus pulmões. Chegou mais perto e puxou conversa. Disse qualquer coisa sobre o calor e a brisa que soprava do mar.Ela sorriu, disse qualquer coisa que sim e outra coisa que não.Conversaram mais, tomaram sorvete, comeram pastel.Sentaram num banco, sorriram bastante um pro outro, falaram mais sobre o calor, o trabalho, a lua, o aquecimento global, as conchas.Depois se despediram.
Mas tornaram a se encontrar no dia seguinte quando tudo era uma mistura de acanhamento, medo e fascinação. Um jogo delicioso de avanços e recuos. Quando a sedução se inicia já não é mais possível retornar. Alice fez charme, Jonas afagou seus cabelos e tocou de leve sua face que ruborizada a entregou para seus braços. O primeiro beijo foi como uma explosão, depois foi suave depois voltou a ser explosão de novo. Ela segurou firme nas costas dele e ele queria tocar as pontas dos seios dela a qualquer custo. Não fizeram amor naquela noite, mas tudo mostrava que aconteceria outro dia.
Começaram a sair juntos para bares e toda vez quando a levava pra casa, antes dela entrar ficavam se beijando, se beijando muito dentro do carro até embaçar os vidros e os dois ficarem banhados de suor.Ela pulava pro banco do motorista, se jogava em cima dele, ficavam se roçando como se tivessem voltado a adolescência.Era um desejo ávido e ao mesmo tempo dócil.Alice beijava Jonas como se quisesse tirar-lhe o fôlego.Jonas gostava dessa falta de ar.Olhava para ela como se quisesse engolir a ostra escondida dentro de uma concha dourada.Fizeram amor só uma vez, foi quando Jonas exercitou sua necessidade de ser manso ou feroz, doce ou atroz.Alice gozou três vezes.Jonas não gozou nenhuma, não dentro dela, mas só fora.
Depois disso Alice achou que eles não tinham nada haver um com o outro e foi embora.

Outros olhos e armadilhas

Alice não é anjo, nem demônio, é mulher. Anda apaixonada pelo Fabrício, mas ele anda fascinado por uma  poetazinha que resolveu seduzi-lo.- Coisa ridícula - ela pensa, mas isso a afetou de verdade.Morreu um pouco com essa decepção, mas é necessário nascer de novo.Pensa em Marcos seu antigo namorado.Fica se olhando nua no espelho, procurando rugas, espinhas, adorando sua bunda, mas gosta mesmo é de admirar seus seios, principalmente os bicos.Vive trancada no quarto, em sua casa cada um tem seu mundo, seus pais moram no sobrado dos fundos.O Irmão também vive trancado no quarto, usa drogas, não gosta de trabalhar e namora uma garota que mora longe, pouco dá bola pra moça que vive ligando pra ele choramingando sua atenção.Mas apesar desse distanciamento são uma família feliz, que fala alto nos almoços e nos jantares.O pai é brincalhão, gosta de beber cerveja.A mãe é aposentada do banco, virou dona de casa e por isso tem mania de limpeza.
Apesar de charmosa e inteligente Alice não tem muita sorte com homens. Fabrício é muito diferente dela, Marcos era mais igual. Mas com Fabrício tinha mais futuro, com Marcos, menos. Não é tão dengosa, mas também não chega ser amarga, Alice não é nenhuma “mulherzinha”, por isso ás vezes se acha masculinizada. Sua cadelinha vive entrando e saindo de seu quarto. Pensa num futuro feliz fora de sua casca.Conversa sozinha - A atual namorada do Marcos é linda, loira, alta.E aquela poetazinha de meia tigela acha que vai roubar o Fabrício de mim, tá muito enganada, não sei fazer versos, mas sou boa de cama!
Alice adora ler livros técnicos. Pensa em Pedro. Um amigo com quem se permitiu transar.Gozou três vezes, assim como gozou com o Jonas, outro “amigo”. A cadelinha entra latindo no quarto, seu irmão numa rara aparição parece chapado. Fuma maconha escondido no telhado, o pai e a mãe fingem que não sabem.Chamam sempre ela para ir a missa, mas ela não gosta, vai ás vezes só para agradar.Pensa na escolinha onde trabalha e nas necessidades especiais dos alunos – É estressante  trabalhar lá, adoro aquelas crianças, mas a minha chefe é um saco, um porre mesmo, vive reclamando da vida, do marido, deve ser mal amada, não devem transar gostoso, igual fiz com o Fabrício ontem, na beira da piscina na casa dele.Duvido que ele lembrou da poetazinha naquela hora.
Alice teve uns probleminhas de saúde, sente dores nas costas, faz ginástica  para se cuidar, faz regime, quer ficar mais bonita, mais atraente, nesses seus vinte e muitos anos, quase trinta.Adora os pais, mais fala pouco com eles, na verdade tem uma grande dificuldade de se expressar.Foi noiva, quase casou, mas Marcos não tava muito afim. Amam-se, mas não conseguiam ser felizes, ele vivia sumindo, metido com política, com um político sujo da cidade. E com certeza tinha outras.A cadelinha entra latindo no quarto.O irmão passa falando no telefone com a namorada, a despreza, parece que sente prazer em vê-la sofrendo. Pensa no Fabrício: - Adoro aquele cara, somos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.
Pensa na poetazinha – Aquela idiota, meio gordinha, quer roubar meu amor, mas eu sei que ela não consegue. Alice se deita no travesseiro, olha para o teto e pensa no que vai fazer essa noite.Pensa em ligar para Fabrício, mas desiste.